segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Na baía de Guanabara

André Fossati


“Navegar no São Francisco é uma poesia”. André Midani observa tudo em silêncio. “Olha aquela embarcação ali Midani!”, Inácio chama atenção e ele responde com um sorriso. Ali no barco, à deriva, as histórias de vida vão se misturando. À beira do São Francisco todo mundo se encanta. “Impressionante. Ele é um personagem bonito e com orgulho de ser o que é”, André fala de Aureliano, músico antigo de Ibiaí que imita o som do trompete com a boca, tem timbre de voz muito bonito e sabe os sambas antigos de cor. O batuque de ponto Chique pode ser novo pra mim como para quem viveu a história da música bem de perto. Para quem foi importante, inaugurou e antecipou movimentos.

André Midani foi o responsável pelo lançamento da Bossa Nova. “Fui uma das duas pessoas que acreditaram que a Bossa Nova iria ser adotada pela juventude brasileira de classe média”. Numa época de intensas mudanças, explica. Mudança que fez Midani escolher o Brasil por acaso. Ele se mudou para França com 12 meses por causa da poliomelite. Foi chamado para combater na guerra da Argélia, mas, aos 21 anos, fugiu num navio com destino para América do Sul. “Eu ia para Buenos Aires, mas quando o navio atracou em Guanabara, eu fiquei por lá”. Arrumou emprego no depósito de uma compahia de discos até que sugeriu duas gravações que fizeram muito sucesso. Depois disso, foi trabalhar na área de marketing. Conheceu Menescau, Nara Leão e o pessoal que fazia uma música diferente. Eles começaram o movimento distribuindo disco no colégio, divulgando o novo som boca a boca.

O olhar aguçado, parece mesmo ter vindo de muito antes, ainda na sua juventude. Em 1967 ele já era presidente da Universal. De cara percebeu o talento de Caetano, Gil, Gal, Chico e Elis. “Estavam começando a despontar no colégio e eu ajudei a transformar em astro”, afirma. E muita gente mesmo diz que o tropicalismo não seria o mesmo sem André. Como se não bastasse, esteve a frente do rock brasileiro da década de 80, lançando bandas como Kid Abelha, Titãs e Ultraje a Rigor.

André Fossati


Eu brinco se a falta de movimentos musicais hoje não seria culpa de seu distanciamento do mercado fonográfico. Ele ri e diz que com seus 78 anos não teria mais a sensibilidade de antes. André está afastado da indústria há oito anos. “O que eu tinha que fazer já fiz”, conclui. Mesmo assim, fica curioso quando eu falo de novos movimentos como o Circuito Fora do Eixo e dos coletivos de música. “Talvez esse seja o novo rumo da música brasileira”, ele reflete e pede para eu mandar mais informações sobre os coletivos.

“O astro do futuro não se sabe”, André responde talvez um pouco cansado das perguntas que tentam fazer dele um adivinhador das tendências da música do futuro. No passado, Midani tocou bateria num grupo de jazz na França, mas achava que qualquer um “batucava" igual a ele. Por isso, desistiu de tocar. O nome da certidão é Andre Haidar Midani, a cidade natal, Damasco na Síria. Midani escreveu recentemente um livro:"Música, ídolos e poder. Do vinil ao download".

E assim, ele manteve o seu silêncio dentro do barco. Conversando sobre a paisagem, os pequenos acontecimentos do dia, Midani ia dando pistas da sua experiência e trajetória no meio musical. Principalmente quando alguém perguntava sobre música ou quando ele falava da crise das grandes gravadoras. “O grande erro das grandes gravadoras foi colocar a criatividade a serviço da tecnocracia”, essa frase ficou na cabeça. Só mesmo a petulância jornalística para contrariar a ordem estabelecida das coisas, quebrar a rotina com entrevistas num local onde pouco conta a história de cada um.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aniversário de Inácio


Homenagem Aniversário from Cinear on Vimeo.


Texto de Rangel Moreira

Este dia é especial para Tomé Nunes e para você, pois sempre é do seu agrado realizar exibições em lugares peculiares. Tentamos preparar uma surpresa, mas basicamente não fizemos por que eu acho que tem que ser de noite e Waguinho que tem que ser de dia.

Mesmo assim, convidamos muita gente. O pessoal do barco, o caboclo d’água, o André Midani, o Dario, até a imprensa! Inclusive Ana, Aninha. “Nós semo tudo da família dela.”

O Fred e o Garoto Cósmico quase não vieram, pois entraram no buteco do príncipio era o verbo e ficaram viajando nos cegos jogando par ou ímpar. Você que é uma pessoa batráquio, uma pessoa rélpis, uma pessoa medioválgel. Ainda bem que faz aniversário em setembro, pois abril já está despedaçado.
André Fossati

O churrasco já está pronto! Compramos carvão e vamos assar a marvada carne. Os caçadores de sasci estão vindo com Pâmilla e Amanda para registrar a festa e colher umas pequenas histórias. O Fossati vai trazer a câmera para tirar um retrato pintado. O menino da porteira mandou lembrança, mas teve que ajudar o homem que engarrafava nuvens. Mas a gente espera, pois essa festa vai até o sol raiá.

A você que faz da sua vida um festival de cinema. Que se encanta com o encantamento alheio, nosso Feliz Aniversário!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Última Viagem



Acordar com o ronco estrondoso do motor. Depois se acostumar com o barulho que passa a fazer parte da natureza. Estar cercado pelo rio todo o momento do dia. Você começa a fazer parte da natureza também. O que poderia ser desconfortável, traz o sono mais tranqüilo do mundo. As cabines são pequenas, com três beliches e um ventilador que pouco ameniza o calor, mas o rio é um sonífero que inspira paz o tempo todo. Durante o café da manhã é o momento de cumprimentar as pessoas e conversar sobre o decorrer do último dia. Mimi e Natasha são as guardiãs da cozinha. Ainda sem saber se elas preferem ser chamadas pelo nome da certidão de nascimento, Vando e Élcio. Mimi se faz de arredia, mas não esconde o fato de gostar de todo mundo do barco e de fazer a comida mais gostosa do mundo. Natasha, que eu carinhosamente chamo de Nati, é boa companheira de buteco e de fofoca.

Mas o zarpar da embarcação não é coisa fácil. A tripulação acorda cedo para arrumar o motor, liberar as cordas e desprender o grande barco que dorme atracado nas cidades por onde fazemos sessão de cinema. O rio está tão raso que parece impressionante o Luminar ainda navegar pelo São Francisco. Carlinhos e Zé baixinho são os motoristas do barco. Eles se impressionam, nunca viram o São Francisco tão raso, mesmo já tendo se aposentado na navegação.

Carlinhos corre para balisar o rio. O barco ameaça parar, faz um barulho de que irá se prender ao chão. Um metro e vinte centímetros, um metro, noventa centímetros, oitenta centímetros. Carlinhos indica a profundidade com os dedos enquanto Zé baixinho navega. Ficamos apreensivos, não dá para navegar com menos de noventa centímetros de água. Zé baixinho reduz a marcha, para o barco. O capitão pega a lancha e sai para verificar os pontos mais profundos do rio. Como quem sabe ler pensamentos, Zé baixinho logo entende para onde deve guiar a embarcação.

Carlinhos me explica que ele sabe a profundidade do rio pelo olho. “Ta vendo aquela linha mais escura do rio. Você percebe outra linha que segue do barranco. Ali é o lugar mais fundo”, ele explica e eu finjo que entendo. Navegar requer conhecimento que vem da experiência e um olhar muito aguçado. Eu tento acompanhar o raciocínio, mas me perco logo no início. Aos poucos vou tomando ciência da sorte e da habilidade da tripulação que fez o Luminar descer de Pirapora até a Bahia, num rio que já não permite navegação como era antigamente. Num rio que de tão raso, não deixa mais transportar carga. No decorrer da viagem, vimos embarcações atracadas por não conseguir seguir seu destino pela falta de água.

Escrevo agora durante minha última viagem pelo rio. Com uma dor que não se entende direito. Como diz Mimi: “Navegar é um vício”. Mimi fez curso de marinheiro, diz que está doida para voltar para casa, mas não esconde a ansiedade pela próxima viagem. Cristiano responsável por fazer funcionar o motor, todo o ano abandona o serviço em São Paulo para vir navegar com o Cinema no Rio. Ele diz que é diferente por causa do cinema e vive com a programação das sessões sempre em mãos. Isso faz com que ele dispense o bom dinheiro que ganha em São Paulo para navegar com o pessoal do cinema.

Marquinhos é o eletricista da Luminar. Ele desenha, pinta e faz sua arte. Gosta da bola de fogo, cachaça que faz ser menos tímido. Ele chegou com uma blusa amarela e queria que a equipe do Cinema no Rio assinasse. Ele queria guardar todo mundo de lembrança e toda hora vestia a camisa cheia de assinaturas. Entrevistamos ele que só dizia das boas amizades dentro da embarcação.

O capitão é o guardião do barco. Ele adquiriu a Luminar que antigamente trafegava pelo São Francisco dando assistência de saúde aos barranqueiros. Hoje a embarcação transporta projetos e pessoas que querem adentrar o rio. Lúcio Barreto viveu história. Perdeu a noiva na guerrilha do Araguaia. Vive com a bandeira do Che estendida no Luminar e quase não viajou com o Cinema no Rio por que não abria mão em substituir a bandeira. “Che era humano e um líder”, ressalta Lúcio.

Uma nostalgia de ter que abandonar o “big barco Brasil”. Brincadeira nossa para falar da convivência, que às vezes é difícil, mas que superamos com as comparações: “Fulano foi eliminado”. Se alguém fica de mau humor, logo contamina todo mundo. No final da viagem o cansaço vai minando a energia da equipe. Mesmo assim, a itinerância traz saudade. Dos jornalistas que vem fazer suas matérias e que adentram um pouco na convivência e dos convidados que passam um período com a gente e que trazem novidade para quem já se esqueceu do mundo lá fora. Saudade de cumprimentar os barquinhos que cruzamos pelo rio, saudade das histórias dos barranqueiros, saudade de poder olhar o São Francisco seco, mas ainda cheio de vida.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eterno retorno

Pâmilla Vilas Boas



“O que essa mulher está fazendo?”. “Ela está filmando”, responde o pai de santo. “Caboclo não gosta de filme”. “É para mostrar nosso trabalho”. O caboclo não gostou das câmeras fotográficas, nem das pessoas estranhas. Durante os cânticos da inauguração do terreiro de Ubanda em Barra do Parateca, o caboclo foi a única entidade, que teve vida na terra, e não gostou da nossa presença. O vaqueiro não se importou, nem o marinheiro que sempre bebia cachaça. O Cícero, pai de santo do terreiro, agradeceu nossa presença e pediu uma salva de palmas. Ele queria que seu trabalho fosse mostrado em outros lugares e imaginou que a câmera gigantesca da fotógrafa fosse de filmar. “Nos meus 40 anos de trabalho, nunca ninguém de fora veio para apreciar”, ele diz e repete os agradecimentos sempre que desincorpora alguma entidade.

“Eu não posso ficar na areia, eu não posso ficar no mar. Minhas pernas ficam bambas e começam a rodar”. A gente chegou no terreiro de surpresa, para vivenciar a experiência. Os tambores são hipnotizantes e as cantigas também. Mesmo assim, o sentimento era de estranheza e de incompreensão. As crianças brincam durante os rituais e algumas até participam da roda. Foi difícil assistir a menina de 14 anos grávida incorporar e dançar com tamanha beleza os passos complicados do vaqueiro. Mas ela não ficou muito tempo com a presença dele, antes das cantigas acabarem, ela saiu da roda para se sentar na cadeira.

A menina de 14 anos vai ter filho logo e quer dispensar médico e hospital para ter o filho com a parteira mais famosa da cidade. Maria já pegou duzentas crianças e nunca morreu ninguém em suas mãos. Já passou por partos complicados, por crianças que vem sentadas e com o cordão umbilical em volta do pescoço. O enfermeiro da cidade quer acompanhar um parto com dona Maria que aprendeu tudo na experiência.

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Maria recita as poesias do pai que cantava a própria vida

Mas a mãe de pegação, que trouxe tantas vidas para o mundo, tem um olhar desolador de quem por muito foi torturado pela vida. Ela conta dos detalhes do dia em que, durante a labuta, sentiu muita dor. Abortou ali mesmo, pegou o feto que já tinha formato de bebê, guardou num pano e continuou a colheita. Andou cinco quilômetros até sua casa com o sangue escorrendo. Limpou tudo para passar pela cidade e ficou em casa silenciosa. O marido estava bêbado e era mais seguro mantê-lo afastado. Ela sentia a dor em silêncio para que ele não ouvisse. Ficou assim até que uma vizinha estudada aplicou uma injeção e impediu Maria de morrer com hemorragia. Maria não tem medo da morte e diz até preferir do que viver calada com a agressividade do marido que, ao mesmo tempo em que tentava findar a vida da esposa com as facadas no peito, comprava remédio para ninguém ver as feridas pelo corpo. Maria cuidou do marido até a morte. Era assim os casamentos de antigamente, ela explica, até que a morte os separe.

Pâmilla Vilas Boas


Guerra

Maria é descendente de escravos. Assim como a maioria dos moradores de Barra do Parateca. Ela trabalhava na fazenda com seu sogro, até o dia em que foram expulsos por que o dono da fazenda tirou a filha dele. Tirar é um termo mais ameno para falar dos abusos que as filhas dos ex-escravos sofriam nas mãos do senhores.

Barra do Parateca já foi reconhecida como comunidade quilombola e traz logo na entrada da cidade um ônibus queimado como símbolo dos conflitos contra os fazendeiros. Foi justamente a filha de um poderoso fazendeiro da cidade que começou a história de quilombo. Eldina estava fazendo mestrado e começou a estudar as comunidades tradicionais. Barra do Parateca foi seu objeto de pesquisa. Mas o que era para ser apenas um simples objeto começou a se apoderar de todo o processo. O pastor Almir assim que tomou conhecimento da existência do termo quilombo, passou a estudar sobre seus direitos, montou a associação que hoje conta com o apoio da maioria da população do distrito. “A mesma família de Eudina hoje são nossos piores inimigos. Quando começamos a mexer com a terra, eles ficaram contra”, explica Almir.

Almir conta que a família plantava feijão e os negros do distrito trabalhavam a troco de comida. Recentemente, os quilombolas invadiram as terras da união por que não tinham mais onde plantar. “Chegou até polícia Federal. O armamento era para guerra e as crianças nunca tinham visto isso”, comenta Almir. A guerra desigual ainda continua. E os quilombolas disputam com juízes e advogados que fazem parte da família mais tradicional da região. Um passado que retorna nas histórias individuais e coletivas de um povo que busca o espaço de direito.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Chuva de fogos coloridos

André Fossati


O gado passou por cima da história, da comunidade, das casas, das quatro oficinas e do engenho. “Às vezes me chamam de negro. Pensando que vou me humilhar, mas o que eles não sabem é que isso só me faz lembrar. Que venho daquela raça que lutou para se libertar.” A música do começo do filme de Tomé Nunes se mistura à paisagem do quilombo e as histórias de degradação do ser humano. Não teve jeito de segurar o choro. A cantiga que o artista Joasir canta se mistura à homenagem da equipe para o aniversário do Inácio, idealizador do Cinema no Rio. Inácio que nunca teve medo de mudar as coisas e que fez questão de que o cinema fosse para Tomé Nunes, mesmo de última hora.

A emoção era de tristeza e alegria ao mesmo tempo. Tristeza pelo passado massacrante desse povo e alegria de ver a concentração nos olhos da comunidade que nunca viu cinema. Cada cena era motivo de riso. Cada história era motivo de discussão. “Se isso acontecesse comigo, eu nunca mais iria em festa nenhuma”, os adolescentes refletem sobre a animação da noiva que dançou depois de morta. Todo mundo ri alto e ao mesmo tempo com a experiência de ver cinema junto.

Maria Clara conhecida como Clarinha, não sabe ao certo a idade, talvez uns 70 e tantos anos. Ela nunca foi ao cinema. Tinha que cuidar dos 12 filhos e não dava tempo de parar para ver as imagens em movimento. Clarinha morava no quilombo até o dia em que os fazendeiros soltaram o gado e destruíram tudo. “Aqui era próspero. Vendíamos farinha, ovos e tinha até engenho”, ela relembra.

Depois da destruição, os fazendeiros ameaçaram matar todo mundo se eles não abandonassem a terra. O terreno era do negro que, na época dos escravos, tinha a posse. Mas não teve jeito de resistir. Maria conta que uma das moradoras morreu ao presenciar os acontecimentos. A outra amiga foi se contorcendo toda até travar as pernas e nunca mais conseguir andar. Não tinham muitas opções a não ser sair pelo mundo sem nenhum pertence. Maria foi para Carinhanha com seus filhos, catar os restos de comida do mercado. Depois ela voltou para o quilombo que nunca mais voltou a ter a prosperidade de antes.

Mas hoje o quilombo tem escola e tem Leobino como dedicado professor. Mãe Velha se lembra da época em que os filhos tinham que estudar em Carinhanha. “Em Carinhanha era tudo escolhido, até a merenda ia só para os brancos", conta. O filho dela era muito inteligente e resolvia, de cabeça, os problemas que a professora passava no quadro. Mas a professora só chamava ele de neguinho e o expulsou de sua classe. Mãe Velha só conseguia chorar porque o sonho do menino era ter formação. Ela foi até o padre que conseguiu uma bolsa e o menino estudou em escola particular. Hoje ele já se formou em enfermagem e trabalha em Belo Horizonte. “O sonho dele era cuidar de doente”, diz Mãe Velha.

A comunidade, silenciada pelo tempo, já se esquecia das tradições, brincadeiras e cantigas. Com a história do quilombo, as reuniões, a comunidade voltou a se lembrar do passado e reconstruir uma história. “Tânia meteu a mão em tudo e alevantou. Essa mulher veio de Deus e trouxe alegria para o povo.”, lembra. A Tânia é uma mulher de fora que, passando pela comunidade, teve o desejo trazer à tona a história e as tradições.
Cris Barakati

Relampejando

Os meninos jogam futebol no chão ainda coberto de poeira. As mulheres do quilombo aguardam nossa chegada debaixo da árvore de sombra boa. A equipe chega para inflar a tela e montar a estrutura. O caminhão com o cinema vem por estrada que afunda de poeira, estreitinha e cheia de curva. As pessoas nos recebem com sorriso e abraço apertado. Mas acham estranho que o cinema tenha chegado até ali. Brincamos de roda e improvisamos versos que são passados pelas gerações.

De tardezinha os ruídos, distinguimos que vinham do céu. A discussão era se ia chover ou não. A chuva é benção para quem aguarda ansioso pela sua chegada, mas pode impedir a sessão de cinema a céu aberto. Mesmo assim a equipe não desanimou, começou a inflar a tela de cinema que se sustenta pelo ar.

Os trovões já cortavam o céu, prenunciando o inevitável. Colocamos um primeiro filme para a comunidade ir chegando. As crianças já ocupavam as cadeiras a tempo, mas a idéia era juntar mais gente. Depois “do Até o Sol Raiá”, os vídeos dos patrocinadores que vem sempre antes do filme da cidade. No momento mais esperado, uma surpresa. Os filhos de Inácio e sua esposa começam a parabenizá-lo pelo aniversário. Depois Marquinhos, da tripulação puxa um parabéns. “é pique, é pique. Como é que termina?”, confunde Marquinhos no filme. A cena da equipe que continua a cantar a música. Inácio na sua inquietude, fica por um momento parado. Chora com uma lágrima discreta, mas perceptível. Chega e comenta: “A sessão está bonita, né?”, escondendo a emoção em ver o inesperado na tela.

Começa a Marvada Carne e a diversão da comunidade com a saga do matuto do interior que fez de tudo por um pedaço de carne de boi. A chuva cai do céu de uma vez só. Os relâmpagos iluminam a sessão que tinha luz apenas da tela de cinema. A comunidade se esconde. Alguns aproveitam da barraquinha de pipoca. Eu, Cris, Amanda permanecemos debaixo de uma árvore, sem medo dos relâmpagos. Cris fotografa os pingos de chuva na luz da tela de cinema. Eu não me movo, deixo a chuva cair e com olhar perdido vejo a festa do cinema acabar com o filme pelo meio. Aprecio a cena que não deixa de ser bela. A equipe da técnica e a produção correm de um lado para o outro, a comunidade na porta das casinhas de adobe, os relâmpagos adornando o céu e a chuva molhando o que parecia ficar seco para sempre.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Gravatas vermelhas

André Fossati



“Bom o filme e bem editado”. Eu e o pescador Vicente assistimos o filme juntos. Em Malhada na Bahia os pescadores, as crianças, os idosos, adolescentes, trabalhadores rurais, todo mundo se ajeitou para assistir a sessão de cinema na praça. Vicente comentava o filme o tempo todo. “Não é o valor, é o benefício”, ele corrige a entrevista com o quilombola que explicava a origem da comunidade. “Eu também vivo nesse engano”, ele diz. Vicente tem uma terra de quatro hectares na beira do rio. Tanto ele como o pessoal do filme espera a cheia vir, molhar a terra para plantar. “Mas eu não perdi nenhum ano”, o pescador se orgulha de nunca ter perdido plantação nenhuma por causa das enchentes.

Depois do filme ele reflete: “todo mundo precisa de terra para sua honra”. Vicente entendeu bem a narrativa do quilombo e a importância da terra para a vida dessas pessoas que sabem muito o que é cultivar e, para ele também, que sempre levou a vida com a terra e com o rio.

Encontrei Vicente enquanto conversava com o pescador Tomás. Ele se aproximou: “é melhor conversar do que assistir TV”. “Tomás está me contando a história de João Duke”, eu disse. E Vicente respondeu que gostaria de ouvir as histórias também . Vicente acha o cinema importante demais e gosta de ver os causos dos antigos registrados. Assim, os dois pescadores conversam e me contam de um tempo que não volta mais.

Tomás era filho do pistoleiro que trabalhava para o coronel João Duke. O pai esteve presente defendendo o coronel na sua luta contra o capitão Alkimim e em sua disputa pela região de Malhada e Carinhanha. Dentro do rio três embarcações com os revoltosos de camisa preta e gravata vermelha. O pai de Tomás estava atocaiado no São Francisco. Numa ilha que Tomás me aponta com o dedo. Ele se junta com os revoltosos e vence a disputa contra Alkimim. Capitão Duke assume o poder da região e pega de volta sua mulher que havia sido roubada pelo adversário. “Eles contam que no dia do tiroteio, quem estava em Malhada só conseguia ver uma nuvem de fumaça vindo de Carinhanha”, diz. As duas cidades são divididas pelo rio.

Rio que hoje se atravessa a pé. Tomás me diz que nenhum ponto do São Francisco, nessa região, tem fundura. O pai de Tomás já havia lhe avisado, ainda num tempo de rio cheio e de peixe com abundância. Para ele, o que sustentava o rio era a veia de água que vinha da Serra da Canastra, região da nascente do São Francisco. “È como a veia que vem do coração. Se cortar a gente morre”, compara. O problema, de acordo com Tomás, é que construíram a represa por cima da veia do rio. Hoje seu destino é a morte e a rasura.
André Fossati


Tomás e Vicente se lembram dos vapores e das festas nos antigos portos. “O apito do vapor Barão era tão bonito que as mulheres choravam quando o vapor chegava”, conta Vicente com a nostalgia estampada nos olhos. Enquanto os velhos se lembram do rio e da época que não existe mais, as crianças se divertem em frente da embarcação Luminar que traz o pessoal do cinema, como eles mesmo dizem.

Túlio, com onze anos, passa a manhã tentando se comunicar com os tripulantes da embarcação que até se parece com os vapores da época. Faz as vezes para chamar a atenção. Canta música do Chitãozinho e Xororó sobre o rio, paga de fotografo com a câmera de Cris. E diz: “Você vai escrever sobre mim também, né?”. Túlio tão criança e já se preocupa em ter a sua vida registrada.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O filme que não vi

Pâmilla Vilas Boas


"Medo de morrer todo mundo tem", disse Domingos durante a pré-produção do filme da cidade. O filme ficou sendo homenagem ao barbeiro que cortava cabelo do temido coronel João Pereira. Se o coronel desagradasse do corte, o barbeiro já não estaria mais aqui para contar a história.

Domingos aprendeu o ofício como olheiro mesmo. E exibiu as ferramentas antigas de cortar cabelo. A cadeira do antigo salão foi ele mesmo que fez. A barbearia estava lá intacta com todos os materiais que lembram um outro tempo. Domingos já não atuava mais como barbeiro, mas mantinha tudo como era antigamente. "O senhor teve filhos?", perguntamos. "Na base de uns 20. Moram nesse mundo aí”, ele responde com a voz baixa e apaziguadora. Domingos falava da sua vida com tranqüilidade, sem muitas exaltações.

Ao ver a barbearia tão intacta e tão representativa da época em que Manga era cidade pequena e em que os cortes de cabelo eram tão diferentes, o corte americano, por exemplo, a vontade é que essa imagem permanecesse para sempre. E que Domingos estivesse sempre lá, manuseando os equipamentos antigos e guardando a memória dessa profissão.

Mas o barbeiro morreu, uma semana depois das filmagens. Assim que chegamos em Manga, fomos procurá-lo para entregar o DVD com o filme da cidade e recebemos a notícia. A casa de Domingos estava fechada e a barbearia sem o seu grande zelador. A vida não é igual ao cinema e não pôde esperar o filme ficar pronto. Procuramos seus familiares para entregar o DVD que iria ser assistido por Domingos. Encontramos a irmã de criação do barbeiro: "Ele vai aparecer, mas está morto", disse. Convidamos ela para a sessão de cinema e dissemos que o filme era homenagem ao barbeiro. Procurei, mas não encontrei seus familiares na hora do filme.

Seu Antero foi, chegou bem cedo. Ele era o prático de Manga, farmacêutico e médico ao mesmo tempo e amigo de Domingos. Seu Antero parecia ansioso para ver o filme que homenageava o amigo e para se ver na telona. Ele também foi entrevistado. Com idade bem avançada, a morte não parece preocupá-lo muito. Ele fica satisfeito ao ver ele e a mulher na telona. Fica com a imagem do amigo em sua barbearia e admira Seu Tezinho; o homem fazedor de cela. “Seu Tezinho fala muito bem”, comenta Antero. A cidade deu boas risadas com o jeito bem humorado e crítico da fala de Tezinho. “Seu Domingos adorava um carnaval. Rodava feito égua no meio do povo. Hoje não roda mais”, disse Tezinho na telona, ainda sem saber que seu amigo agora é só memória.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A feiticeira dos santos

André Fossati

Lavadeiras na beira do rio. Contrariam a profecia, lavam roupa no dia de sábado. Dona Maria passa o ramo, canta cantiga da mulher rendeira, conversa com o papagaio. A igreja é antiga, traz a tona a memória do passado. O líder quilombola conta as origens de Matias Cardoso enquanto escuto as risadas descontroladas do bêbado da cidade. Ele se contorce, conversa sozinho e dá gargalhadas ouvindo nossa conversa séria. No meio de tudo, um casamento compõe a cena. A noiva era belíssima e caminhava até a igreja com seu vestido de cauda longa.

O dia em Matias Cardoso foi de coincidências mágicas. Um dia de acontecimentos que parece cena de filme desconexo. Nessa cidade mística à beira do São Francisco, as casas são coladas. Não se sabe onde começa e termina. As paredes geminadas e as cores vivas têm o papel de distinguir um lugar do outro. Caminhávamos a passos lentos, o silêncio era para compreender o que a razão não alcança. “Foi Deus quem mandou vocês aqui. Vocês não me conhecem como me encontraram?”, pergunta Maria.

Ouvimos alguém cantar, nos aproximamos. Ela cantava e dançava na rua. Chegamos perto e mostramos interesse. Dona Maria nos convida para entrar. A casa é empoeirada e cheia de animais. Maria divide sua morada com muitos cachorros, galinhas, gatos e pintinhos. Seu grande companheiro é o papagaio que parece conversar sem imitar ninguém. Ele pede um café e Maria toma num copo junto com o papagaio. Adornando a pequena casa, muitos quadros de santos e imagens sacras. “Vocês vieram passar o ramo?” Não entendemos a pergunta. “Já sei vocês são crentes”, conclui.

Dona Maria se desculpa pela sujeira. “Não varri a casa ontem, por que não se pode varrer dia de sexta. E se você varre os passos de alguém nesse dia, essa pessoa nunca mais volta”, conta. Ela se preocupa com as roupas sujas. Não se lava roupa dia de sábado. Sábado é dia de Nossa Senhora. Ela conta da mulher que desrespeitou a profecia e ficou pregada na beira do rio. Quando termina o caso, as lavadeiras que conversávamos anteriormente sobem a rua. Elas é que não sabem o risco de desrespeitar a profecia.

A gente conversa sobre o dia de Nossa Senhora e no mesmo instante assistimos uma comitiva caminhando pela cidade com o estandarte da santa. Elas param na porta de Maria e pedem uma oferenda. Maria procura o que tem em casa, mas não encontra nenhum saco de farinha, feijão, fubá. Procura cinco reais e não tem. A gente tira uma nota, entrega para a comitiva e Maria dá um sorriso. A sua conversa prenuncia os acontecimentos.
Amanda Horta


As profecias

A fala de Maria é desconexa misturando as profecias com os casos e fatos do cotidiano. Difícil achar uma linha de raciocínio entre seus relatos de magias e interdições. “Isso é do tempo velho. Eu e Simeana não somos de hoje”, reflete. Ela fala da irmã gêmea o tempo todo. “Mãe trouxe nós a pé e com fome. Uma do lado e outra do outro. Do rio verde do Grutuba para cá.”

“Eu estudo na EJA e Simeana fica danada. Simeana não sabe assinar o nome, como é que vai votar?”, pergunta. Foi só quando vi a foto das duas gêmeas que acreditei que Simeana era de verdade. É que depois da rodeação da fogueira em dia de São João é possível saber se existimos. Depois da roda, é hora de ir para a beira do rio e ver seu rosto refletido. Se não, é sinal que já morreu. Nesse momento eu já estava enfeitiçada com a magia de Maria.

O Vicente está secando. Pagando o preço de uma existência de maldade. Maria nos conta do finado Joaquim, seu marido e custo a entender o acontecido. Entre as magias como a terra de cemitério e a irmã que vomitou passarinho, ela conta que Vicente entrou em sua casa e fez o que quis com ela. Depois correu para Joaquim: “Você vai casar com ela? Maria não é mais moça”. Casaram-se e hoje Maria exibe o quadro com a madrinha e o Marido. “Eu não tenho mais ninguém. Mãe, Marido. Todo mundo já morreu”, comenta.

Ela conta tudo enquanto procura o ramo para rezar a gente. “Desde que chegaram eu senti que estavam precisando”, comenta. Primeiro Amanda depois eu. Com as mãos abertas para abrir o corpo, Maria reza enquanto passa o ramo. Depois da reza as folhas estão murchas, é por causa do olho gordo. Antes de ir embora, Maria reza de novo. A benção é para fechar o corpo e impedir que as más energias nos invadam novamente.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O boi Jesus

André Fossati




Iara, carranca, jacaré, caboclo d'água. As praças de Itacarambi são todas personalizadas. Na praça principal, os bichos e encantamentos do rio. Na outra, em homenagem aos pescadores, a praça dos bancos. Banco dos solitários, banco dos namorados, intelectual, da família, dos moderados. Cada banco é personalizado e colorido. Lá a sua condição de existência faz escolher aonde sentar.

Em Itacambi, cinema é dia de festa. A tela foi montada na quadra de futebol contornada pelas arquibancadas. A trave de gol e os holofotes do cinema. A região é cercada pelos bares, lanchonetes e carrinhos de cachorro quente. Na hora de começar, Inácio teve a ideia de passar um filme surpresa para chamar as pessoas. Ele exibiu "Os filmes que não fiz". A ideia funcionou.

A amplitude do lugar que poderia parecer vazio, imediatamente ficou completa. As pessoas tomaram as arquibancadas, lotaram as cadeiras. Muitas assistiram o filme em pé e outras aproveitaram da mordomia dos barzinhos em forma de quiosque. Outras transitavam de um lado para o outro. Fotografavam, conversavam e assistiam o filme. Uma bricolagem de pessoas, lugares, cenas e personagens encantados. Depois da chamada inusitada do filme que não estava na programação, a abertura da sessão. "Boa noite Itacarambi", dessa vez não foi preciso repetir a saudação: "Um boa noite mais animado", por que as vozes vieram de todas as partes com grande amplitude de som.

Pâmilla Vilas Boas /Cris Barakat



As crianças tentam subir na mula sem cabeça, mas não chegam muito perto do caboclo baixinho com olhar que mete medo. Na praça da cidade, elas vivem o encantamento. A tela inflável está no meio de tudo. Dentro do campo de futebol, no meio do rio, na frente da carranca. Uma mistura de elementos que parece com o sincretismo da manifestação do boi de reis. No dia da apresentação do boi de reis, depois da morte do boi, chegam os animais encantados da folia. Na folia eles estão móveis e são ressignificados com as mudanças que a tradição sofre com o tempo. Na praça, os animais encantados estão fixos, parados e imutáveis.

A festa de boi de reis é a mais esperada na cidade. Quando o vaqueiro mata o boi, a Dona Maria que é quem puxa a folia, ela canta: “Mataram meu boi”, chega mais perto e pergunta: “Quem matou meu boi?”. Ela faz a propaganda e corre atrás do vaqueiro que faz o boi ressuscitar. Depois dessa cena que parece com a ressurreição de Jesus Cristo entram os bichos encantados. Tamanduá, ema, a derradeira e a fera. Luiz Caipora é uma cabaça. Cada bicho tem uma história, uma dança, uma cantiga e a hora certa de entrar na roda.

domingo, 26 de setembro de 2010

Poesia que se escreve na memória

André Fossati

Grupo dos Temerosos se apresentam antes da sessão em Januária

A rua de baixo em Januária por pouco não alcança o rio. Dona Narcisa que tem 80 e poucos anos se lembra da época em que a água chegava a invadir sua casa. Seu Binu com seus 100 anos e oito meses fala de um rio hoje quase morto. Andar pela rua de baixo é mergulhar na história e conversar com pessoas centenárias. Em alguns casos a memória vacila. Como Dona Didi que nos conta a origem do nome Januária e no mesmo minuto se esquece do que foi dito.

Dona Maria de 96 anos é poeta. Seus poemas ela escreve na memória. Sabe os 12 escritos de cor. “Eu penso de fazer a poesia e vou juntando os verbos na rima”, explica. Não teve oportunidade de aprender a ler nem escrever. Mas as rimas são certeiras e os versos, um lamento. A amiga pediu para que fizesse um poema sobre a Itacarambi antiga. Mas as rimas não vieram na cabeça e até hoje Dona Maria não cumpriu o pedido. “É igual música, tem que ter rima se não vira o caos”, enfatiza

Seu Binu, marido de Dona Maria exibe uma caligrafia perfeita. Ele passou para o caderno um dos poemas de sua esposa que fala do Rio São Francisco. “Lagoa aonde passava a pé, logo passava a canoa. Rio de São Francisco a vida ninguém compra e a morte ninguém paga”. Eu pergunto por que seu Binu não registra no caderno todos os poemas de Dona Maria. “Ele não gosta muito de escrever , por que anda tremendo a mão”, explica Dona Maria

Do poema sobre São Francisco, ele se orgulha. Pega o caderno para recitá-lo, cola o olho nas folhas, por que seu Binu não usa óculos. Se perde um pouco nas palavras, mas conclui a leitura do poema e não esconde o orgulho em ainda poder ler sem usar óculos.

Seu Binu não escreve poemas nem é dado as rimas, mas se lembra com memória fotográfica das histórias fantásticas. “O mundo é encantamento. Quem quiser ver coisa nesse mundo, anda. É encanto, coisa que até Satanás duvida”, ele inicia dando vida para as narrativas que um dia podem morrer. Uma vez seu Binu foi para Barretos. Chegou lá e viu um elefante que bebia cerveja. Depois que o elefante encheu a cara, ele levantou as duas patas de trás e dançou igual gente. “Você duvida? Pode escrever com caneta de ouro”, completa. Seu Binu faz questão de ver a gente anotar tudinho. “Anotou aí?”, ele sempre pergunta.

“Dona Narcisa mulher de Berto Preto”. Essa foi a primeira frase de Dona Narcisa quando entramos em sua casa. Essa frase ela repete com freqüência. Sua memória só alcança a vida e os feitos de seu marido, famoso em Januária. Berto Preto era cantor de reis, trouxe os reis dos temerosos e quase todos os festejos tradicionais de Januária. “Era Berto Preto que marcava a dança de São Gonçalo”, lembra. Berto Preto já morreu tem tempo e Dona Narcisa se lembra da época de quaresma quando seu falecido distribuía peixe pela cidade.

Pâmilla Vilas Boas

Seu Binu ganha o CD com o filme da cidade. Ele aparece no filme.
Se a rua fosse minha

A rua de baixo é poesia que se escreve no presente. Num passado não muito distante, Digão conta que a rua sofria com a criminalidade e com o preconceito dos moradores de outras regiões. Em Januária, a briga entre bairros era coisa comum. Os outros moradores não caminhavam pela rua de baixo e quem morava lá não era bem visto no resto da cidade. “A rua de baixo sofria com as drogas e com as crianças que eram levadas para o tráfico”, explica. Para reverter a situação, Digão começou a realizar trabalhos sociais, no começo, sem muita estrutura.

Quando ele teve a idéia de juntar esporte e cultura, a realidade começou a mudar. “O projeto abriu as portas para as comunidades. As crianças criaram amizade, influenciou os pais e a convivência melhorou”, conta. Isso por que Digão explica que a idéia era promover uma interação entre os bairros e as aulas de música, os esportes são abertos a toda a cidade.

“A métrica rica e viva na voz do povo”. No filme o “Homem que engarrafava nuvens” essa é a descrição da pureza magnífica dos versos das músicas nordestinas. Hoje na sessão de cinema o grupo dos Temerosos da rua de baixo se apresenta para o resto da cidade. Temerosos, reis de bois, capoeira. Hoje a rua de baixo é referência cultural; é poesia viva.

sábado, 25 de setembro de 2010

Cobra preta que devora o mundo



O asfalto vai devorar a terra. Meu filho, sabe o que é uma cobra preta que vai devorar muita gente e que não sabe onde começa e termina? Seu Dão cresceu com essa questão na cabeça. Ficou muringando. A idade mais avançada e a sua relação com o encantamento das narrativas dos antigos, fez com que desvendasse o mistério. “A cobra preta infinita é o asfalto. Que não tem começo e não tem fim”, me explica. “Os antigos eram profetas sem saber ler. Sabiam de nada e sabiam de tudo ao mesmo tempo”, conclui.

Durante a entrevista na comunidade de Palmeirinha, a vontade era passar o dia ouvindo as narrativas que não tem limite, que explicam o inexplicável e que dão sentido aonde a razão falta. Seu Dão conviveu com o caboclo d’água. Já passou alguns perrengues, mas o menino encantado do rio nunca fez maldade com ele. “Antônio Quibo atirou no Cabloclo. Ele é encantado e não morre.” Ele conta que o Caboclo derrubou a casa de Antônio que quis zombar do garoto. Pelo fundo do rio, cavando por baixo da terra, ele chegou na casa e fez com que esta fosse devorada.

O nome Pedras de Maria da Cruz também tem explicação. Maria da Cruz era mulher malvada. “Por isso a cidade não desenvolve”, completa. As pessoas que vinham de São Paulo a pé e passavam por Pedras eram mortas e jogadas no rio pela mulher. Debaixo da igreja da cidade tem um salão com Cabloclo d´água, mãe d´água e carreiro de boi. Ninguém deve ousar chegar até lá. Certo dia um mergulhador foi e nunca mais voltou.


O quilombo

Durante a passagem do cinema no Rio em 2007, os antropólogos do projeto descobriram a comunidade negra de Palmeirinha. Ali, eles fizeram amizade com Agmar, e integraram-lhe da questão quilombola no Brasil, da possibilidade de requisitar o certificado de auto-reconhecimento e de solicitar o título das terras cuja escritura, no nome da matricarca da comunidade, Dona Juliana, não está legalizada. Interessado, Agmar começou a pesquisar a história do quilombo, entrevistar moradores e a viajar pela região em busca de informação. “É um vício, minha vida é tornar palmeirinha um quilombo”, diz. O grande desafio agora é convencer a comunidade e fazer a auto-estima deles se elever com o nome quilombo ainda muito estigmatizado.

Perguntei para seu Dão sobre o quilombo ele responde que isso é coisa dos antigos e explica a origem. “Tinha um negro que fugiu da áfrica e veio para cá. Seu nome era Nego Cadete. Uma vez ele Ele pediu para descansar na casa meus avós e eles gostaram da prosa dele. Por lá ele ficou", conta. Seu Dão relata que Nego Cadete viu um papagaio rodando a roça e avisou: "Isso é uma cascavel que vai picar um lá em Goiás". Todo mundo zombou dele. Ele foi girando uma vara, o papagaio foi descendo e se transformou numa cascavel. Ele comenta que Nego Cadete era pessoa muito ativa.

Dona Cida se lembra da novela Sinhá Moça. “Quilombo é igual o da novela. Muito triste, mas isso não existe mais”, conta. Ela nunca foi ao cinema, só assiste imagem pela televisão. Lá na comunidade Palmeirinha, durante a nossa visita, ela comentou do ônibus escolar que iria levar as crianças para a sessão de cinema. Dona Cida estava concentrada. O filme da cidade era sobre a comunidade Palmeirinha, só se ouvia gargalhadas com a imagem do pessoal fazendo farinha de tapioca. Num jogo lúdico entre a questão quilombola, as narrativas de Dão e as imagens cotidianas da comunidade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A morte do dourado



Os fotógrafos da embarcação saem correndo. Câmeras gigantes, que acoplam lentes maiores que o próprio instrumento. Muitos cliques. Todo mundo corre para a beira do barco. Eu escrevo com fone de ouvido, por causa do barulho constante do motor. Logo abandono o texto para ver o que aconteceu. Fisgaram um peixe.

A rotina dentro da embarcação é outra e os acontecimentos importantes também. Todo mundo saiu do estado de letargia pelo balancear do barco, para um estado de euforia, depois de quase cinco horas de viagem. Carlinhos da tripulação pescou um dourado de três quilos. Parece pouco considerando as histórias de ribeirinhos, como Seu Binu, que jura ter visto pescador pegar peixe de 200 quilos. “Pode anotar aí”, ele reforça a veracidade do fato. De toda forma era peixe grande e Carlinhos teve que segurar o anzol com firmeza. Todo mundo correu para ver o peixe no rio que parecia inabitado.

“Coitado. Eu não consigo olhar”, eu disse para Amanda. “Imagina você estar lá tranqüilo querendo comer algo e ser fisgado desse jeito”, refletiu Amanda. A Cris começou a chorar silenciosamente. Logo saquei que era por causa do sofrimento da criatura. O fato é que estávamos abaladas com o findar precoce do habitante do rio. Além disso, a imagem do peixe saindo do anzol, perdendo o fôlego enquanto busca algum ar para respirar, lutando para ficar na água, traz certa agonia.

Mesmo assim, a euforia tomou conta de todos. Rodrigo Gonçalves da Petrobrás tirou foto com o peixe. Hoje é o primeiro dia dele no barco e já presencia o maior dos acontecimentos. Ele, que também é pescador, pretende mostrar a façanha para os amigos. Inácio pegou o anzol e queria repetir o feito, empreitada sem sucesso. Esse foi o maior peixe que a tripulação pescou durante todo o trajeto. Todos os dias eles colocam o anzol na água e esperam pegar alguma coisa. Contrariando as histórias de pescaria do passado, em que dava para pegar curimatã com as mãos. De alguma forma, todo mundo acreditava que esse rio não iria dar mais peixe. È por isso que uma simples pescaria é motivo de orgulho, sinal de que o Velho Chico ainda não morreu.

Eu preferi me concentrar nas andorinhas que vivem acompanhando o barco. Elas fizeram ninho no Luminar e ficam sobrevoando em volta para não perder a morada. São duas andorinhas azuis que parecem ter decorado o caminho da embarcação. Cercados pelo rio e pelas andorinhas, o sinal é de que tudo está em seu devido lugar. O rio tem peixe, a natureza ainda está viva, mesmo com a fumaça das carvoarias que se misturam ao azul do céu e do rio.
Chegamos em Itacarambi. As lavadeiras lavam roupas no rio. Os meninos nadam perto delas e alguns ficam no barranco tentando comunicar com a embarcação. "Tira foto da gente", eles gritam de longe.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

“Sem pátria, sem nome, sem lar”

Pâmilla Vilas Boas


Das Neves estava em dúvida. Quando chegamos na comunidade quilombola de Buriti do Meio com aquele monte de câmeras de filmagem, ela perguntou para Inácio. “Será que eu mudo meu nome?”. Uma vez lhe disseram que o nome das Neves remete a algo muito branco e que não combina com a atual posição como remanescente de Quilombo. Na frente da câmera ela mesma reflete. “Mas eu gosto tanto do nome. Foi minha mãe que colocou.”

Eles estavam em reunião discutindo o reconhecimento da comunidade como Quilombola. Ela é a líder de Buriti do Meio e tem consciência da importância de suas falas para os que filmam, pesquisam ou tem curiosidade de entender um pouco do cotidiano da comunidade que guarda uma história preciosa. “Tem gente aqui que nem dá pesquisa. Corre para o mato, vai para outras casas. Fala que não tá. Eu nunca neguei isso em momento algum. Desde 99 eu dou pesquisa para as faculdades pra qualquer presinho, pros doutores, pras justiça.”

Ela pediu para a antropóloga Amanda falar da importância do contato com o Incra para a demarcação das terras. De todas as comunidades quilombolas de Minas, apenas uma conseguiu o título da terra – Porto Cori, hoje sob as águas da represa de Irapé. Mas Amanda diz que, mesmo assim, a luta não está perdida. Depois foi a vez de Das Neves, que com sua espontaneidade fora do comum falou da importância da passagem do cinema, das filmagens e dos pesquisadores. "Eu vou ficando mais capacitada", afirma.

Para conseguir o reconhecimento, Das Neves foi para Brasília e teve que contar sua história para um monte de gente. Quando chegou lá, viu uma exposição com peças da época dos escravos. Dentre elas, as máscaras que os senhores usavam para deixar os negros sem comer. Eles ficavam em jejum durante 40 dias para clarear os dentes. Das Neves se emocionou com o contato com o passado.

Depois foi a sua vez de contar a história do quilombo que começa com o rapto da bisavó que foi acorrentada e domesticada por um fazendeiro. Sua origem vem do filho que a bisavó teve com o senhor. "Ás vezes eu fiquei na posição de jornaleiro. Mais de 50 jornaleiros com o microfone ali pra eu tá falando sem tá prevenida. Claro que eu falei a verdade porque não dava tempo de mentir. O que a gente fazia, comia, o tanto que a gente caminhou, eu fui soltando ali tudo.", conta.
André Fossati


Pelo cinema

“Veio no porão dos navios negreiros em dor. Trabalhar nos engenhos de cana de açúcar. Ser escravo sem pátria, sem nome, sem lar.” Navio Negreiro é música de Toninho Terra. Toninho é músico que ganhou muitos festivais na vida, abriu show de Belchior, Zé Ramalho dentre outros. Hoje abandonou o violão e custa a lembrar algumas de suas duzentas composições. Sentados com Toninho antes da sessão de cinema em São Francisco, ele tenta retomar as melodias na memória. Mas o grupo de teatro de Buritizeiro, Imagem e Contexto, não se conforma; quer levar Toninho de volta aos palcos.

Eles se empolgam falando do compositor e usam várias músicas dele nas peças. Toninho tem uma inspiração fora do comum. Compõe na hora, quando vê ou ouve alguma coisa. Suas músicas falam de temas atuais, coisas do passado, natureza e o que ais lhe vier a cabeça.

O grupo de teatro também ganhou muitos prêmios em suas andanças. Mas a falta de tempo e a dificuldade de se dedicarem exclusivamente aos palcos fez com que o grupo se separasse.

Mas o Cinema no Rio descobriu a existência do grupo e eles decidiram montar a peça ‘São Francisco vivo’ para apresentar no projeto. A apresentação que seria apenas em Buritizeiro se estendeu e eles seguiram com a gente de barco para se apresentar nas cidades do fim de semana. Infelizmente o trabalhou impediu que seguissem o rio todo. Hoje planejam apresentação em Belo Horizonte e acreditam que o Grupo vai se unir novamente.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A vida de Galinha Tonta



video

“Isso é uma mensagem de Deus para comunicar com o mundo”. Galinha Tonta aprende qualquer idioma rapidamente e muda a entonação quando fala coreano, japonês, vietinamita, árabe, tailandês. Ele contraria a barreira da linguagem e não escorrega nos fonemas. Como se o mundo fosse um só e como se as palavras fossem fáceis de domesticar, ele vai com tranqüilidade absoluta esbarrando, contornando e contrariando o universo escorregadio da incompreensão.

“Não adianta aprender a palavra cadeira, parede. Tem que aprender para o que serve as coisas,” conta. “Quando eu for para o estrangeiro o que adianta saber falar frases soltas?”. Galinha sempre se preparou para o estrangeiro, mesmo nunca tendo ido muito longe de casa. “Tenho vontade de viajar, mas faltam condições”, lamenta. Esses dias ele foi na prefeitura tentar conseguir uma passagem para Belo Horizonte. Tem um empresário amigo dele que quer apresentá-lo para umas pessoas. E Galinha sabe da importância dessa reunião.

“Eu comecei a aprender russo sozinho e Natasha veio me ensinar”. Galinha Tonta aprendeu os idiomas aos sete anos depois de um sonho revelador. A aparição de Natasha em sonho é recente, depois de muitos anos que os meninos não aparecem mais.

A família não tinha condições e Galinha tinha o costume de pedir comida na casa dos vizinhos. Até o dia em que a diretora da escola o humilhou. “O que esse menino está fazendo aí na mesa? Devia comer com os cachorros”, Galinha conta com detalhes o episódio. “Eu larguei o prato na hora. A garganta tampou. Parece que o mundo escureceu para mim”, lembra. Depois disso ele foi para a casa e ficou debaixo dos cobertores. Durante o sono, sentado na praia apareceram três vultos. O primeiro falou em Japonês: Deus é amor, o segundo, loiro, falou em Alemão e o terceiro falou em Inglês.

Ele despertou do sonho falando coisas que a mãe não entendia. E ela de súbito correu com ele para a igreja, para o padre rezar o problema que ele tava tendo na língua. Mas o padre era de origem alemã e logo percebeu que o Galinha estava era falando o idioma. “Ele não tem problema nenhum de cabeça. É uma graça de Deus na forma de língua”, disse o padre. Depois disso, Galinha conta que a casa dele virou um tumulto.

Fantástico, Ratinho, TV Gazeta, bandeirantes, revista Calunga. Foram muitas as reportagens que relatavam o sonho e o aprender inacreditável de Galinha. Maurício Kubrusly veio filmar ele em sua própria casa. “A gente vai te ajudar” e Galinha com seus 50 anos espera a ajuda até hoje. Mas as perspectivas são boas. O cineasta Davi Colares vai fazer filme com ele. “Já disse que ele precisa retribuir”, completa.

Inácio Neves

Não se apaga

“O professor era os meninos, o giz era o dedo e a areia era o quadro”. A casa de Galinha é toda escrita na parede. “Entrada de banheiro para homens e mulheres” nos ideogramas Japoneses de um lado, wellcome de outro. A casinha pequena, empoeirada, na periferia de São Francisco chama atenção já na fachada. “Escola de idiomas. Espaço fala menino”. Nos fins de semana, ele dá aulas de línguas para as crianças da periferia. De graça, por que como ele, nenhum desses meninos poderia pagar. Com as não muito generosas contribuições que recebeu pela fama da sua forma de aprender as coisas, ele construiu um cômodo para dar aulas. “O que Deus me deu tenho que passar para frente”, repete.

Tanto no cômodo da escola, como na sua casa, as estantes são feitas de tijolos e lá ele guarda dicionários e livros de línguas diversas. Ele sempre recebe caixas de livros e recentemente ganhou um computador. Agora descobriu a internet e copiou uns sites que mostram palavras em línguas diferentes.

Ele agradece a Deus, aos sonhos e aos estrangeiros que passaram por sua casa. Há 10 anos conheceu uma família de Japoneses e se aperfeiçoou no idioma. Depois, uma família de norte americanos passou por lá e ele nunca deixou de conversar com o padre alemão.

Ele sempre conversou com tranqüilidade e nunca se preocupou em ter que colocar o talento em prova. Um dia, numa palestra, os professores de inglês disseram que Galinha conversa tudo errado. Mas um americano que estava presente se levantou e disse que entende Galinha muito bem. Galinha agora escreve o livro: “A vida de Galinha tonta”. Foi à escola só até a quarta série e nunca trabalhou. Antes de aprender a ler, ele aprendeu o alemão. “A partir das recordações eu vivo muito bem”, diz.

Ilha perdida no tempo



Peço para Arnon Siqueira escrever seus pensamentos. Ele fala com emoção, mas de um jeito que não se entende. Sentei no meio fio durante a sessão de São Romão para observar a reação das pessoas. Para descrever semblantes, sorrisos e olhares durante o filme da cidade. Tudo pela minha fixação por perceber outro no seu espelhamento na telona. Arnon estava ao lado e não se incomodava com minhas perguntas. Tentei me acostumar com os sons que o problema na fala impede a distinção, mas minha capacidade foi pouca e entreguei a escritura.

“O filme divulga com emoções
As culturas das nações
Vamos ao cinema ver nossa arte
E a arte feita pela natureza”

Esse é um trecho que Aron escreveu no meu caderno. Apaixonada que sou pela oralidade, tive que sentir o espírito de palavras tão espontâneas. Pedi pra que ele escrevesse o que dizia, só para que pudesse fazer sentido na minha cabeça.

“Fim. Arnon Siqueira. São Romão. 17-09-2010”.

Cadernos

São Romão respira história que é escrita até hoje. O artista Telêmaco devorou os livros e conta tudo desde o começo. São Romão era cidade próspera, em 1719 já era sede judiciativa de Salvador. Com o tempo foi perdendo a força e rebaixada a vila. Como herança, Telêmaco, com seus 40 anos, se lembra da juventude e dos clubes da cidade que eram separados entre negros e brancos. “Sempre fui metido a sabedor”, diz. A casa de Telêmaco é de adobe e ecologicamente correta. Seus quadros com traços livres e subversivos refletem alguém que vive na “Ilha perdida no tempo”, como ele mesmo diz.

Essa ilha tem suas preciosidades, que infelizmente o tempo não perdoa. Para entendermos a tradição, Dona Maria do Batuque deveria viver para sempre. O seu toque de caixa inspira demais a gente, ainda que ela não tenha consciência. Sem ser valorizada pela cidade, mas muito reconhecida no mundo estrangeiro, ela mostra o livro e o CD gravado por quem veio de muito longe.

Uma casa foi construída com dinheiro da venda dos livros. A casa nova fica trancada, ela mora da antiga feita de terra. A construção atual é mesmo para receber os visitantes. Quando chegamos, ela procurou a chave e pediu desculpas por está tudo empoeirado. Pediu para buscar o roncolho e duas caixas. Ela pegou a mais grave e eu tentei acompanhar na mais aguda. Com vergonha de que meu som pudesse interferir na magia de ver Dona Maria bater caixa e cantar as melodias dos antigos, tudo ao mesmo tempo.

sábado, 18 de setembro de 2010

A festa dos sacos se pipoca


Antônio, conhecido como seu atochadinho, tem um carrinho de churrasco em Cachoeira do Manteiga. “Projeto esperança, a criança em primeiro lugar, 24 horas no ar, sem parar”. Essa é a frase estampada no carrinho. De madeira, com o freezer ligado numa bateria, parece ter sido feito todo à mão. “Que projeto é esse seu atochadinho?”, pergunto. "Projeto é aquilo que você projeta na cabeça. É a idéia. Eu acho que criança é mais importante e escrevi”, ele explica. E de onde vem o nome atochadinho. “È para chamar a atenção, por que deixa o povo curioso”. Ele cria suas estratégias e sabe da importância das filmagens, da fotografia. “O pessoal do Rio de Janeiro veio aqui e filmou o carrinho”. Ele pergunta se a gente não quer ir lá e fotografar para passar a imagem adiante.

Seu atochadinho já morou em São Paulo e foi para Cachoeira do Manteiga por acaso. Chegou lá e gostou. A cidade com suas ruas de terra, casas de adobe poderia ser o retrato de um lugar de pobreza. Não fosse a agitação das crianças, suas peraltices e as mulheres que andam pelas ruas com seus bobs gigantescos. A cidade respira um ar de alegria onde o ritmo das coisas corre lento e onde o povo se esconde por precaução. Em cachoeira do Manteiga, a água pega fogo como ilusão, mas é por causa do gás que sai da terra. A tela infla como balão, mas é cinema.

A sessão

Dessa vez eu tive a missão de anunciar a abertura do evento. “Oi gente. Boa noite”, gritei tentando esconder o acanhamento. Com o mesmo receio, muitas pessoas evitaram se aproximar da tela. Ficaram atrás, na esquina, observando o filme de longe. Chamo todo mundo pra frente com o microfone, mas não adianta.

De pé, um senhor fixa os olhos no filme “Menino da porteira”. Convido para sentar, mas ele balança a cabeça indicando um não. Horas depois, o mesmo senhor na mesma posição. O filme de narrativa simples arrebatou a cidade. Bem certo que seja pelo fato de todo mundo conhecer a música e aguardar a hora do menino morrer no meio da boiada. A criançada estava agitada, atirando tudo que via no projetor. Taynara liderava a confusão e inovava com idéias impossíveis, como a de por pedra dentro do saco de pipoca. “Ela não tem limite”, comentei com o psiquiatra Belisário que acabava de integrar a equipe do projeto como convidado. “Ela não tem limite por que tem muitas idéias”, ressaltou.

No momento de tensão, os meninos se calaram. A festa de sacos de pipoca parou. A garotada se ajuntou no meio da lona e o senhor arregalou os olhos. Essa foi a hora esperada. O menino da porteira morreu pisoteado pela boiada sem a chance do resgate do boiadeiro.

Do outro lado, atochadinho vendia seu churrasco de maneira que via o filme bem de longe. A narrativa ressuscitou memórias do passado que atochadinho contou sem dramatizar. Diferentemente da narrativa trágica do filme, ele contava com tranqüilidade. “O São Francisco me levou três parentes”, dizia ao mesmo tempo em que falava da importância do projeto que segue esse mesmo rio. O irmão de dois anos caiu no São Francisco, a mãe foi tirar e se afogou. A tia chegou a tempo e conseguiu salvar o garoto que hoje está em qualquer lugar do mundo. “Vou escrever uma carta para o Gugu e ver se encontro meu irmão”, diz. Seu atochadinho sabe da importância da comunicação: “Só eles poderiam encontrá-lo”.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Único instrumento

André Fossati

Os batuqueiros tocam o roncolho

Uma lata de leite de metal. Tira a tampa e coloca o couro de bezerro. Dentro da lata uma vara. O roncolho é instrumento essencial nos batuques. Quando puxa a vara, o som é rouco, grave, intenso. Misturado às três caixas, ele sobressai e faz com que o batucar tenha sonoridade única. Única por que o instrumento é singular. No batuque de Ponto Chique ele é tocado por duas pessoas. A lata de leite é comprida. Um senta em cima da lata para batucar na parte coberta de couro de bezerro e outro senta num banquinho e puxa a vara do roncolho.

“Eles não gostam muito de nós”, o batuqueiro Olímpio Gonçalves fala do desprezo do pessoal da cidade com relação ao batuque. Na primeira vez que o Cinema no Rio passou por Ponto Chique, eles não tocavam muito e não queriam se apresentar antes da sessão. Com muita insistência, eles toparam se apresentar na praça. De lá pra cá muita coisa mudou. “A gente foi entrevistado na sala do presidente Lula. Lá tem três mesas maiores e uma menor”, explica. Seu Olímpio veio pedir apoio para Inácio, eles só não se apresentaram ainda em Belo Horizonte. “Por que a gente quer é crescer. Antes do Cinema no Rio passar a gente não sabia nem brincar. Hoje a gente leva essa história adiante”, emenda.

A dança eles explicam que veio da Bahia na época dos escravos. Que veio com o pessoal que andava pelo rio. “Canoeiro o que você trouxe na canoa? Cravo, rosa e muita coisa boa”, canta. O batuque é feito de conversa. A cantoria também resolve os dilemas. Dona Isabel de 102 anos é a rainha do batuque. Ela e o filho, Valeriano, relembram o dia que a tia de Dona Isabel apanhou do marido. O marido estava na caixa e a tia puxou a melodia. “Foi você João.”. “Não fui não Maria.”, ele respondeu. “Foi você que me bateu no romper do dia”, ela denunciou, em melodia, na roda de batuque. Quando se cria um novo verso, não se esquece mais. Ele é incorporado ao batuque e repetido pelas gerações. O que faz do batuque de ponto Chique único é a dança que não tem em nenhum outro lugar. “Ninguém dança igual a gente”, comenta Olímpio.

Todo mundo entra na roda

Dentro da roda


No terreiro, os pintinhos, a casa simples e o varau de roupa. De repente entra o pessoal do Cinema no Rio, o fotógrafo e a TV Cultura. As câmeras invadem a rotina de um dos locais onde brincam os batuqueiros. Depois de muitas filmagens eles vão se apresentar de novo antes da sessão. Depois da apresentação, ainda muito tímida, talvez por causa de tanto holofote e luz que atrapalha até a visão. Talvez por que o medo de se apresentar na cidade de origem ainda não passou. Ou por que é difícil resumir a tradição para apresentar no palco.

Fui no barco e coloquei uma saia. Ansiosos para aprender um pouco do batuque, pedimos para eles brincarem, depois da apresentação, na rua ao lado da sessão de cinema. Roda para um lado, roda para o outro. Depois do último giro, uma bate o ombro no ombro da outra. Para convidar para dançar, o movimento é livre, mas o olhar deve se manter fixo nos olhos de com quem você quer girar. Foi a parte mais difícil. Me convencer de que eu deveria estar ali e poder olhar nos olhos das mulheres que fazem dessa brincadeira a sua vida.

As mulheres geralmente só dançam e respondem o cantador. Quase nunca puxam o roncolho. Eu fiquei curiosa com o som, a curiosidade superou o jeito certo das coisas seguirem. Deixa eu ver como toca. Talvez por que eu era de fora, eles me ensinaram, e me deixaram tentar. “Olhá só ela está puxando o roncolho”, gritaram. “Você tem que contar para a Fernanda [antropóloga que esteve com eles na edição anterior]”.

Saímos de lá ainda sem entender direito como funciona o tal batuque. A ida é rápida mesmo, a interação mais ainda. “Imagina se a gente pudesse ficar aqui um mês. Só com o tempo a gente consegue entender o que é que se fala na roda”, comenta a antropóloga Amanda. Os versos ficaram escondidos no canto que ainda embaralha as nossas cabeças e, terminado o batuque, nos diz Olímpio: “Vocês viram que eu cantei também pro Cinema?”. Nós sorrimos em agradecimento. Ainda que não tenhamos identificado a cantiga quando cantada, o elogio do cantador, nos fazendo batuque, alegra e arrepia o corpo cansado de tanto pulo e rodopio.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Os sambas que eu não fiz

André Fossati

Seu Geraldo se apresenta antes da sessão de cinema

O dobrado, a partitura, semínima, fusa, semifusa. “Eu sou músico de escola”, gaba o trompetista Aureliano. "É bem mais difícil, o alfabeto é o dó, ré, mi, fa, sol, la, si que vai do grave ao agudo". Já o sanfoneiro seu Geraldo toca de ouvido. Peço para me ensinar os acordes na sanfona e ele se confunde. "Essas bolinhas são o baixo que acompanha o teclado. O fole é para sair som", explica. Durante a exibição de cinema em Ibiaí, Geraldo comenta. “Acho que isso de estudar não tem nada a ver, se você consegue tocar música bonita”. Ele tem razão, sua sanfona despertou os aplausos da sessão lotada. A história de Adão é ourta. Ele trabalhava para o pai tocar. "A gente era pobre e ele teve muito filho. Não tive como aprender”, conta. Mesmo assim ele sabe muito de instrumento e brilha os olhos quando fala do pai e da música.

A banda antiga de Ibiaí é o que une tudo isso. “Era a melhor, só perdia para São Romão”, Adão comenta. O pai tocava todos os instrumentos e o maestro da banda fazia questão dele nas apresentações. Certo dia o maestro apareceu na roça para buscar o pai, mas eles estavam roçando o terreno e o pai se recusou a abandonar a lavoura. Seu Adão ainda pequeno disse: "vai lá pai e eu dou um jeito de achar alguém para me ajudar na lida.” "Se é assim eu vou", respondeu. Já seu Aureliano também era integrante da banda e se lembra dos sambas antigos. Geraldo e Aureliano vivem música de forma diferentes. Geraldo nunca teve visão e Aureliano já não vê com os olhos por causa da idade. Um fala do dom de nascença e o outro da relevância dos estudos.


Seu Aureliano jura que sabe os sambas de cor

Outros carnavais

“Vai, vai amor, vai que depois eu vou”. Tataratatá. Seu Aureliano guarda na memória os sambas que a antiga banda da cidade tocava. Ele pediu a prefeita de Ibiaí para trazer uma banda de Brasília e pediu também para que tocassem o dobrado. Aureliano se emocionou e o Seu Adão também.

"Peraí que vou buscar o caderno". Seu Aureliano guarda a memória na escritura. A lista de todos os vapores de Minas e Bahia e alguns sambas que ele quase sabe de cor. Dentro de toda essa memória algumas anotações que não fazem muito sentido. A capital do méxico é maior que a capital de São Paulo. Inconstitucionalicimamente. Essas frases soltas só fazem sentido pelo jeito metódico de Aureliano que ficou pouco tempo na escola, mas mostra que sabe soletar a maior palavra de 32 letras. "Para você ver o crânio de uma pessoa inteligente", gaba. O Orgulho de Aureliano por sua história nos chama atenção e nos fez ter a ideia de gravar seus sambas. Chegamos lá com a equipe de filmagem, eu gravava o som, enquanto Amanda ia lendo uns trechos dos sambas anotados no caderno.

A memória é boa, mas ele ainda precisa de alguém para falar o comecinho dos sambas antigos. Só isso já faz Aureliano puxar tudo da memória. A autoria deles não importa, o que vale é a lembrança das melodias que são passadas de geração a geração. Aureliano canta Chiquinha bacana e diz: "É tudo meu. Eu posso cair mortinho se alguém me ajudou a fazer". Ele não está dizendo da autoria, se refere a memória, à lembrança e às letras escritas no caderno. Seu Aureliano não encherga bem, mas avisa: "Toma cuidado que as duas primeiras folhas estão soltas e não posso perder nada".


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Passagem secreta


André Fossati

A árvore parece contradizer a razão da existência humana. Entrelaçada na ruína de pedra, fica a dúvida. Será a gameleira que sustenta a igreja de trezentos anos, ou os seus galhos entrelaçados, o prenúncio da destruição das ruínas de pedra? Quebrar as muralhas que testemunharam mais de trezentos anos de história. A luz do cinema ilumina as folhagens da árvore entranhada na parede da igreja. Em sua frente o absurdo de uma tela inflável que traz a possibilidade da imagem em movimento. “Cadê meu amor que a noite chegou fazendo frio”.

Compondo a paisagem, um grupo de teatro se apresenta. Movimento, sons, cores. As crianças batem palma no ritmo da melodia. “Cadê meu amor que a noite chegou fazendo frio.” A seção de cinema em Barra do Guaicuí não se descreve por que faltam palavras adequadas. Em frente à igreja de pedra, construída pelos jesuítas no século XVII, uma tela inflável. No fundo uma árvore que surge das ruínas. Na frente, a cantoria do grupo que encena o sofrimento do Velho Chico.

Assistindo a tudo isso, um monte de criança inquieta que, quando pára de conversar para focar a atenção no grupo de teatro, é por que a cena é realmente muito encantadora.
“ê ô ô. Velho Chico”, cantaram.

A seção estava lotada. Na hora do filme da cidade, aquela gritaria. O louco da cidade, as crianças na escola, as professoras. Quando todo mundo reconhece o personagem na tela, arma-se o alvoroço. As crianças jogam papel, pipoca e o que tem pela frente no projetor. A sombra na tela os encantam. “Vocês estão atrapalhando a projeção”, grita o pessoal do cinema. E eles continuam testando e desvendando o que parece magia.


André Fossati

Sem fim

No século XVII os Jesuítas não terminaram a empreitada. Deixaram a igreja de pedra pelas metades. A guerra com os bandeirantes que escravizavam indígenas impediu o término da igreja que foi feita para durar para sempre. Em meados de 1930 surgiu a gameleira, entrelaçou-se e tomou conta da construção. Dentro da igreja a fantástica passagem secreta. Para uns uma lenda, outros tem argumentos históricos. A enchente encobriu o túnel que atravessava o rio. Para as crianças, a passagem secreta leva até a comunidade de Porteirinhas. Elas contam que o espírito de Fernão Dias mora lá na comunidade. Todo dia à tarde as crianças se reúnem na igreja para suas peraltices. Cheguei lá para fotografar e eles quiseram minha câmera. Quando eu pedi para fotografá-los eles retribuíram. “Vem cá que eu vou fazer foto sua”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Navegantes de primeira viagem


André Fossati

Os navegantes de primeira viagem escondiam a ansiedade de passar muitos dias e noites dentro do barco. O quarto é muito pequeno? Tem banheiro? Chuveiro quente? Inácio que já seguiu o São Francisco várias vezes tenta acalmar os tripulantes. Sua primeira viagem foi em 1975. Inácio adora contar a aventura. “Era época da ditadura. As cidades do Velho Chico eram muito diferentes”, lembra. Estrada sem asfalto, dificuldade de acesso, a falta de recursos era muito maior. Ele desceu no vapor Venceslau Braz, famosa embarcação que movimentava os portos ao longo do Velho Chico.

Hoje o rio é outro. Muita gente diz que nunca viu esse rio tão seco, sem peixe. Mesmo assim, a paisagem não deixa de ser encantadora. Mas a água azulzinha, os pássaros coloridos vez ou outra dão lugar as fábricas e sua fumaça à beira do rio. Agora, sou capaz de imaginar toda a movimentação de embarcações e sou capaz até de ouvir a diversidade sonora dos apitos. Inácio relembra da expedição e da movimentação do rio. Do forró perto dos portos e do apito que avisava a partida do próximo vapor.

Depois de ver o barco zarpar, e se acostumar com o balanço e com a movimentação do rio, a tripulação se acalma. Olhares perdidos nessa imensidão azul e a paz do silêncio dos pensamentos. Escrevo agora olhando para o rio e prestando atenção nas pessoas. A jornalista Bernadete do Canal Brasil conta das suas andanças e não perde o fôlego. Ela passaria toda viagem contando seus casos sem repetir nenhum. “Me perguntaram onde encontro Deus. Eu respondi: dentro de uma caverna”. O editor de direitos autorais, Dario escuta pacientemente as histórias da jornalista. Ele veio como convidado, mas faz questão de participar do dia-a-dia do projeto, conversar com as pessoas e participar das seções de cinema. “O mais legal é ver o povo feliz e os sorrisos das crianças.”, diz.

O fotógrafo André Fossati, se cansou de contar piadas. “A roça sou eu”, para se concentrar nas imagens diárias que produz do rio. O jornalista Fernando, da revista Viver Brasil, que parecia ansioso com a viagem, se acomoda no segundo andar do Luminar e perde sua visão no horizonte. A assessora de imprensa Júlia, o cineasta Fernando conversam despretensiosamente. A oficineira Sâmara não desgruda de sua câmera. O resto da tribulação: a antropóloga Amanda, as oficineiras Michele e Erika foram se acomodar no camarote, quarto pequeno, no primeiro andar da embarcação, com vários beliches e um ventilador.

É assim mesmo que seguimos nossa jornada. Como diz o produtor executivo, Rangel, “o projeto começa quando entramos no barco”. É só depois que nos deparamos com a imensidão do rio que damos conta dessa empreitada e dos quilômetros, cidades e histórias que ainda temos pela frente. Inácio grita atenção ao belo encontro entre o rio das Velhas e o São Francisco. Os jornalistas correm para fotografar o momento. Pequenas embarcações margeiam o rio das Velhas em Barra do Guaicuí. Chegamos agora ao nosso primeiro destino.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma terra para morrer


Pâmilla Vilas Boas

Foi pega no laço. Depois amarrada e domesticada pelo fazendeiro no entorno de Buritizeiro. Para ver se já estava amansada, ele jogava uma galinha no cativeiro. A fome e o ódio eram tamanhos que a pequena índia rasgava a galinha no dente. Mas com o tempo foi se acostumando com as angústias da vida, foi tendo que perder a raiz. Raiz de tradição e, mais importante ainda, a raiz que a ligava a terra, ao chão, a vida, a sobrevivência. Essa é a lembrança de Matilde, indígena Cariri, durante a seção de cinema em Buritizeiro, onde ela me contava um pouco da sua história que começa com a lembrança do rapto da bisavó. Ali, sentada na cadeira, acuada, quieta, silenciosa. Um grande acaso, eu ter conversado com Matilde e ter ouvido tanta história que não se conta e que não se escuta. Um passado silenciado que fez parte da construção da famosa Buritizeiro.

No começo era só mato, quando forasteiros e nativos da região disputavam a posse das terras na beira do São Francisco, famoso rio coberto de diamantes. No meio da disputa, os índios Cariris que já habitavam a região, foram mortos e enterrados, lado a lado, no hoje conhecido cemitério dos índios. Ninguém sabia, até a instalação do SAAE no lugar. O desenterrar dos crânios remontaram toda a história.

Algumas famílias sobreviveram, dentre elas, a família de Matilde que foi viver numa terra abandonada, perto de Buritizeiro. Por lá, passaram pela guerra da fome. Com a enchente de 1979 não tinha como buscar comida, a não ser as raízes de pau. Lampião também passou por lá, nas suas andanças e na matança de quem o contrariava. Seu Manuel, pai de Matilde, viu tudo isso e conta também da época em que trabalhava para um fazendeiro da região. Época em que fora escravizado sem saber. Trabalhavam por comida, que era superfaturada pelo fazendeiro. Com o dinheiro acumulado pelo trabalho da família indígena, ele conseguiu o recurso necessário para comprar as terras, ocupadas pela família de Matilde.

“Tem dia que eu alembro e fico duas noites sem dormir”. Manuel prefere não recordar do dia em que teve a terra tomada e a casa destruída na sua frente pelo mesmo fazendeiro que o escravizara. “Qual foi sua reação?”, eu interroguei sem consciência da crueldade da pergunta. Ele se calou, ficou olhando para o infinito. “Ele não fez nada, ficou chorando. Eu mesma achei que ele não iria agüentar, mas está aí vivo até hoje”, interrompe Matilde que faz questão de contar tudo que lembra. As terras foram tomadas recentemente e Manuel não teve como recorrer. O único advogado que tentou defender a família, foi morto. Manuel e a esposa passaram um tempo se escondendo por causa das ameaças de morte.

Mesmo assim, Manuel prefere não comentar sobre suas raízes indígenas, mesmo que o cinto com a imagem de um índio americano pudesse sugerir suas referências. Ele fala das cabeças de porcos perdidas com a tomada da terra e conta da sua vida após a devoção. Seu relato começa, sempre, de quando se tornou devoto da folia de reis. “Tem hora que é bom ser índio, mas tem hora que não é. Meu pai passou leite de madeira nos dentes, caiu tudinho. É que índio tem dente grande, fácil de perceber”, lembra Matilde completando o silêncio ensurdecedor dos pensamentos do pai.

Matilde lembra que de falecido na sua família não tem ninguém, que todo mundo foi assassinado. Menos a avó carrasca que enterrava os filhos até a cintura para eles ficarem quietos, quando ela tinha que sair de casa. Com isso sua mãe ficou paralítica. Matilde não gosta muito de açúcar e prefere alimento cru. O sonho é voltar para o campo, sente uma necessidade forte que a leva em direção da tão sonhada terra. “A gente fica recolhido sem poder voltar para o lugar de onde veio”, diz. Ela se casou com um descendente de espanhóis que quer se mudar de Buritizeiro. Matilde insiste, quer ficar onde moram seus pais e seus avós, onde sua família criou seus irmãos, venceu a fome e fincou raízes.

domingo, 12 de setembro de 2010

Vídeo Andrequicé


Vídeo filmado em Andrequicé e exibido antes dos filmes. Maria Eduarda e Marco Túlio se divertem na frente da câmera. A memória de Manuelzão é recontada pelos moradores

Untitled from Cinear on Vimeo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Manuelzão ainda vive


Foto: André Fossati

Não tenho medo da morte
Por que sei que vou morrer
Tenho medo do amor falso
Que mata sem Deus querer

Esse é o verso mais famoso de Manuelzão. Verso que ele recitava para o povo da cidade, jornalistas de fora e que esteve impresso na lembrança da missa de sétimo dia. “Manuelzão não morreu, ele continua até hoje com a gente. Ele é o Roberto Carlos de Andrequicé”, comenta Dalva do grupo de bordadeiras da cidade. “Ele sabia fantasiar histórias. O grande diferencial é que ele não ficava só no alicate, ele ia além”, relembra. Se Manuelzão foi o vaqueiro mais lembrado durante suas andanças com Guimarães Rosa é por que ele sabia como fantasiar e acrescentar os causos que ouvia dos antigos.

Quando os moradores de Andrequicé recontam a pessoa de Manuelzão, a imaginação vem à tona novamente. Não uma imaginação desconexa e às vezes sem sentido como a de Marco Túlio, mas uma memória que vacila e reinventa.

“Me fala um pouco sobre Manuelzão”, pergunto para a filha Aparecida Nardi. “Qual? O famoso ou o nosso Manuelzão?” Na lembrança de Aparecida, ele era homem simples que acordava cedo, fazia café e cuidava de uma horta enorme que plantou com a esposa. Ele dormia cedo, mas na época da novela Roque Santeiro, ele dormia mais tarde. Aparecida conta quando Manuelzão foi conhecer os personagens da novela, Viúva Porcina e o Sinhozinho Malta. “Ele não tinha medo de nada, só de avião. Dizia que para morrer de avião, só se um deles caísse na cabeça dele”, mesmo assim, com o tempo, Manuelzão se rendeu ao transporte dos céus e passou a dizer que era a melhor coisa do mundo, nos conta Aparecida.

Era homem inquieto que, quando ficava mais de uma semana sem viajar se entristecia. Ele andou a cavalo até os 90 anos e passou 40 dias e 40 noites com Guimarães Rosa. Dava palestra em Belo Horizonte. “O Doutor Apolo, vinha muito aqui e buscava ele para dar palestra na faculdade. Ele ia batizar o primeiro filho dele, mas acabou morrendo antes”, comenta.

Homem que gostava muito de mulher bonita e que era capaz de passar uma noite inteira contando caso para os jornalistas que vez ou outra iam o visitar. “Os repórteres tiveram aqui e levaram ele para a praia. Ele adorou as mulheres de biquíni”, conta Aparecida. Homem que não aceitava que falasse que Aparecida era filha adotada, isso por que, para ele, pai é quem cria. “Não tem um dia que a gente não fala dele”, termina.